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| A literatura do espaço de combate entre a rodovia e a floresta. |
Quando falamos de
literatura contemporânea, do que mesmo estamos falando? A professora Sylvia
Helena Cyntrão (2008) se propôs a investigar essa questão em uma pesquisa
quantitativa intitulada O lugar da poesia brasileira contemporânea:
um mapa da produção. Nesse trabalho ela e seu grupo de pesquisa analisaram
cerca de 3000 poemas de 100 autores contemporâneos das cinco regiões do Brasil,
incluindo nessa pesquisa, portanto, a literatura poética da Amazônia.
Essa autora parte
do conceito de entre-lugar entendendo
como sendo “o espaço estético de intervenção que qualquer identidade radical é
diluída e o sujeito artístico é livre para ressignificar o imaginário que o
impulsiona” (CYNTRÃO, 2008, p.83). Como resultado, aponta dados reveladores com
relação à produção poética brasileira da contemporaneidade.
O seu grupo de
estudo conclui que as produções poéticas contemporâneas do Brasil tendem para
serem textos figurativos, com elementos textuais imagéticos, de onde emergem
imagens fragmentadas, como reflexo de manifestações de sensações do sujeito com
a marca da pós-modernidade, esse é um sujeito que busca sua reintegração,
havendo nesse tipo de poema uma leve centralidade direta de quem fala em
relação aquilo que se fala.
No nível fônico,
o ritmo prevalece como aspecto
relevante, mesmo em se tratando de poemas em versos livres. São
ainda textos com uma forte carga de angústia existencial, sendo que “esse mergulho na existência leva a
construções metafóricas elaboradas ou a uma simples e crua poesia visual. Ambas
com a mesma e pulsante busca pelo ‘Santo Graal’ latente, pelo norte na vida,
por seu proposito em si.” (CYNTRÃO, 2008, p.88). Há ainda, nas manifestações
poéticas analisadas nessa pesquisa, aquelas que tendem para o sociocultural, o
político, o místico/religioso, o prosaico e até apelo erótico explícito e mesmo
nas referências libidinosas, por vezes lascivas.
O viés cultural é explicado por essa autora como sendo aquele
que apresenta as marcas de determinada cultura de forma evidente. Nesse caso,
o eu-poético defende ou espelha-se em um determinado nicho social, representado por expressões idiomáticas,
idiossincrasias dos indivíduos de uma dada cultura e até por rituais, referências
geográficas claras e também as histórico-ideológicas. Já o político
caracteriza-se por apresentar-se atrelada à manifestação do eu-poético que
trata do Estado, de forma crítica ou defensiva. Essas manifestações poéticas
culturais e políticas são categorizadas pela autora como projeção de identificação que podem ser feitas de formas explícitas
ou implícitas. Segundo ela, o eu-poético pode ainda fazer uma projeção étnica,
sexual ou religiosa.
É nesse contexto da
contemporaneidade das produções poéticas nacionais que estudamos a literatura
da Amazônia nas produções poéticas de Charles Trocate. Trilhamos
por essa “abertura” feita por Cyntrão (2008) nessa multíplice variedades das interpretações dessa gama de forma das poéticas contemporâneas (ECO, 1988) com a finalidade
de situarmos a poesia do poeta escolhido. Sendo assim, entendemos que o estudo investigativo das produções literárias
de determinado local geográfico e discursivo de uma região específica da
Amazônia deve ser feita no sentido de dar vozes aos sujeitos esquecidos e
silenciados nos discursos que se produzem sobre a Amazônia.
Charles Trocate: voz da contemporaneidade da poesia da Amazônia
Charles Trocate é
uma das lideranças do MST/PA, vive atualmente em um projeto de assentamento no
município de Parauapebas. Como poeta é uma voz que se levanta contra a justiça
burguesa, contra o latifúndio que oprime o trabalhador rural com suas cercas. Sua
estreia poética ocorre em 2002 com a
obra Poemas de Barricadas, pela
Gráfica e Editora Perez Ltda., com apoio cultural do MST. Essa obra de estreia
reúne 45 poemas, divididos em duas partes, I Parte, Poemas de desobediência, a II Parte, Poemas de alta luz. Alguns desses poemas possuem datas, revelando
uma cronologia de 2000 a 2001. No ano de
2007, o autor publica duas obras poéticas: Ato
Primavera e Bernardo meus poemas de
combate. Nessas obras, há
composições que vão do ano de 2003 a 2006, são poemas escritos em suas estadias
em Marabá, Parauapebas, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Clara-Cuba. Em 2015,
o autor publica a obra 1993, pela
Editora iGuana, de Marabá. São, portanto, quatro obras poéticas que revelam uma
grandeza estética que merece ser estudada. Para esse trabalho escolhemos poemas
da primeira parte do livro de estreia.
Massaud Moisés (MOISÉS, 1989, p.140), afirma que há
três sujeitos envolvidos no processo de criação poética: o eu-social, que é o cidadão que vive na sociedade cumprindo suas
obrigações sociais; o eu-poeta, que é
aquele que usa o terceiro eu, o eu-poético para se expressar. Nesse
caso, tanto o eu-poeta, quanto o eu-poético pertencem não ao universo
social, mas ao universo do poema. Para Hegel é necessário que o poeta utilize o pretexto fornecido pelas
circunstâncias exteriores para revelar a si mesmo, isto é, as circunstâncias
exteriores são apenas o motivo inicial para o poeta expor os seus sentimentos,
alegrias e tristezas, para expor o seu modo de ver e conceber a vida.
Assim, temos nos poemas de Charles
Trocate um eu-poético crítico,
carregado de revolta, raiva e paixão. Seus temas e imagens revelam um
conhecimento sólido de quem vivencia a luta do trabalhador rural. A projeção de
identificação que o eu-poeta faz é
política, seu poema tem política. Como ele mesmo revela “De tudo planto/ porque
o poema não é apolítico”, e anuncia “Primeiro ato; ocupar a terra desmedindo a
lei/ Segundo ato; resistir (dia e noite) e revoltando-se!/ Terceiro ato;
produzir pão e belezas”. É no contexto da
violência do campo, num processo baudelairiano, que o poeta consegue tirar suas
flores. Para isso nos convida “Mira nas flores impermeáveis/ No desespero/ do
dia”.
Em sua obra de
estreia, Poemas de Barricadas, a luta
será feita com o “coração armado” e o combatente dá a ordem “Arremessai as
estrofes do amor / o discurso de terra / clareai-nos com tua dureza” e se
prepara para a luta:
Que venham os horrores
Os opositores
E suas têmporas!
Porque esse corpo soa paixões
Que a emergência da guerra
Não fere.
Minha juventude
É de terra e favo
Aqui resplandeço
Essa
decisão.
(Coluna do Sol)
Temos nos poemas de
Charles Trocate uma voz insurgente do poeta que se “alimenta” da matéria-prima
de sua experiência num processo consciente, tal como faz Sartre[1]. Seu trabalho estético no
nível fônico do poema se dá pelo ritmo. Esse ritmo pode ser cadenciado pelo
corte do verso em segmentos que se separam para esquerda e para a direita de uma
linha vertical central que parece segurar esses segmentos dos versos, como se
verifica no poema Do coração, no qual
o poeta lança sua crítica àqueles que “...finge ver o céu” deixando de ver os
acontecimentos que os cercam e as mazelas disso:
Quem finge ver o céu,
Dentro da
máquina
O instinto da tática?
Não ver os acontecimentos,
Instantâneos.
Nem o céu em seu crepúsculo
Amém!
Os canhões incessantes
Insanos!
Esse recurso forma
um interessante jogo sonoro visual como na última estrofe do poema Ira dos invernos, no qual nossos olhos parecem
ver o cansaço flutuando como se
estivesse solto do poema, contradizendo o verso que [É impossível] Alar o cansaço. O mesmo efeito se
percebe com a utopia como se ela
deixasse o poema:
Impossível ter fome
Mais que essa?
Alar o cansaço
Mais
que esse?
Calar a utopia
Mais
que essa?
Cometer sacrifícios
Mais
que esse?
Vir ao mundo sem poesia
Mais
que essa?
O ritmo pode também ser marcado pelo
jogo entre as sílabas breves e longas, nas repetições de vocábulos e nos ecos
sonoros internos do poema. Um bom exemplo desses recursos aparece no poema Antes do fim:
A terra sempre está pronta!
Foz de vida!
Desenhada pelo lastro da beleza,
Organiza as sementes
E tenaz voa!
A terra se renderá ao amor
Será o amor!
Que cercas ficarão em pé
Com essa filosofia?
O pulso que abre as alcovas
Que esmerilha o corpo do pão
Que lhes incute fermento
Não se curvam...
Que ganancia restará com
A partilha da ciência de fazer
pães?
No nível
morfossintático, é possível verificar uma forte ocorrência de substantivos e
verbos. Essas ocorrências podem sugerir a condição do eu-poético amalgamada na
expressão discursiva. A expressão mais filosófica é apresentada pela
recorrência a conceitos, expressos pelos substantivos; já a recorrência de uso
de verbos sugere a condição de um eu-poético mais ativo (CYNTRÃO, 2008, p.87). Há nos poemas trocateanos um pulsar de
imagens conseguidas pela força criativa de figuras de linguagem que unem palavras
de campos semânticos diferentes. Há uma forte tendência para o animismo como
nesse caso:
O poema
taciturno
É um músculo vivo
Soando às
margens da imortalidade
E num voo de
vontades
Desarma a
teoria
da solidão.
(Coluna do
sol!)
Ou pela metonímia, nesses
versos:
Levou-me,
Um homem
Pois o silêncio amargo do
vinho
Sobre vossas mesas
Calou-nos por um instante
diário
Quando a exasperada bala abria
Tristezas
Visíveis em nossa bandeira
A terra coube
O corpo
(26 de março)
E ainda nesses versos:
a ferrugem da água
o desgosto do gosto
o dorso
arrancado da lama
o teto
embriagado do corpo
(Lugar
capital)
Na próxima postagem, fizemos um levantamento teórico sobre esses três conceitos (leitura,
literatura e ensino de literatura), relacionando-os sempre a nossa proposta de entendimento da literatura da Amazônia.
[1] Ao analisar a obra
de Sartre, Meszáros destaca o intercâmbio
entre a vida e a obra desse autor e observa que Sartre era “intensamente
consciente” disso. (MESZÁROS, 2012, p.35)

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