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O nosso objetivo nessa postagem foi fazermos uma abordagem sobre a literatura da Amazônia, tomando
como base trabalhos teóricos que levantaram as seguintes questões: O que é
literatura da Amazônia? Qual é o seu espaço ocupado hoje na literatura
contemporânea do Brasil? Quem é o sujeito que fala nessa poesia? Sobre o que
escreve e quais são suas temáticas e imagéticas utilizadas para sua expressão?
A primeira questão
proposta é saber como designar as produções literárias que se fazem na
Amazônia. Há quem prefira e defenda uma
designação mais localista como literatura
paraense, literatura amazônica, ou
uma expressão mais nacional como literatura
brasileira de expressão amazônica. Uns
consideram que o universal não se forma sem o local. Já outros preferem usar
expressões que não impute à literatura da região um “acanhamento” local que “fira”
o princípio da universalidade.
O professor José
Guilherme dos Santos Fernandes (FERNANDES, 2004) busca um entremeio nessa discussão e propõe o conceito de identificação (processo) ao de identidade (produto) como o caminho para
se sair do “beco” entre o local e o universal. E assim ele justifica que “nada nos impede,
ideologicamente, de aceitar uma designação mais localista para a literatura
produzida por autores paraenses, desde que se atente para as condições em que o
discurso identitário é produzido”. Em seguida questiona: “só é paraense ou
amazônica, ou brasileira, a literatura que tem autoria de um aborígene dessas
plagas?” (FERNANDES, 2004, p.114). Para chegar a uma conclusão a esse respeito,
esse autor propõe que consideremos ainda os conceitos de região com a inovação acrescentada pelo geografo Milton Santos
(1997) para o qual antes da modernização industrial, o conceito de região era entendido como um grande
território com aspectos particulares e isolada do restante do mundo, que era
formado por infinitas regiões autossuficientes; no entanto, com o capitalismo
esse conceito passa a ser entendido a partir do funcionamento da economia a
nível mundial, sendo assim, a globalização econômica adquiriu diferentes versões
no mundo, o que torna os modos de produções os mesmos, mas as condições de
produções distintas umas das outras, conforme a região e a cultura existente
ali. Sendo assim, o autor recorre a Silviano Santiago (1982) para dizer que existe
uma universalidade, mas a das
diferenças. Essas diferenças são objetivadas na paisagem, sendo essa, segundo Silviano
Santiago (SANTIAGO, 1982, p.62), a dimensão da percepção, “a percepção é sempre
um processo seletivo de apreensão”, isto quer dizer que “se a realidade é apenas
uma, cada pessoa a vê de forma diferenciada; dessa forma, a visão pelo homem
das coisas materiais é sempre deformada.”. Dessa forma, trazendo esse
pensamento de Santiago (1982) para a questão que estamos discutindo, observamos
que as pessoas que se propõem a categorizar a literatura da Amazônia percebem essa
realidade de forma diferente e, às vezes, antagônica, indo do estreitamente
local ao amplamente universal, ou seja, tão local que se fecha em seu próprio
essencialismo, ou tão universal que se desprende da origem para poder ser
aceita como literatura “de verdade”, a “alta literatura”.
Com base nessas argumentações, pensamos
coerente adotarmos a designação proposta por Fernandes (FERNANDES, 2004, p.115),
de pensar as produções literárias feitas na região como literatura da Amazônia aceitando também a explicação dada por ele:
Em seu primeiro sentido, a preposição de marca o lugar de onde provém algo,
sua origem. Ademais, a ideia de causa é correlata à origem, o que implica dizer
que a Amazônia é a origem e causa desse tipo de produção literária que funda a
um imaginário pautado em sua paisagem e identidade, transitórias entre o local
e o universal: mas, atente-se, a Amazônia é o ponto de partida e não um fim em
si mesmo. E ainda mais, o que pode ser oportuno para uma análise que não
procure essências amazônicas: ao dizermos ‘literatura amazônica’ o adjetivo
determina uma qualidade inerente ao substantivo, o mesmo não ocorrendo com a
utilização da preposição, que antes aponta uma qualidade de momento.
Ou seja, a
solução está na entremeagem entre uma
posição e outra. A literatura é da Amazônia
porque foi produzida a partir dela, ou sobre ela. Entendendo o universal/local,
nessa discussão, como sendo o nacional/regional, talvez possamos dizer que a
literatura da Amazônia é nacional sem deixar de ser da Amazônida, ao mesmo
tempo em que é da Amazônia sem deixar se der nacional.
Entre o rio e a floresta: a literatura mitopoética do ribeirinho
Uma dessas formas
de entendimento da literatura da Amazônia é apresentada pelos trabalhos do
Projeto Integrado IFNOPAP,[1] da
Universidade Federal do Pará, no qual o professor João de Jesus Paes Loreiro[2]
contribui em uma das publicações desse grupo de estudos com o ensaio Meditação Devaneante: Entre o Rio e a
Floresta. Nesse trabalho, esse autor afirma que no espaço entre o rio e a floresta, onde vive o
caboclo ribeirinho, ocorre uma transfiguração
dos enigmas da floresta em enigmas do mundo. Sendo o ribeirinho uma
síntese da tensão e troca entre a
natureza e a cultura, é, por isso, possuidor de um imaginário estetizante, através do qual cria suas ficções mitopoéticas. Por esse processo,
diz esse autor, o ribeirinho cria explicação-resposta
utilizando metáforas que o ajuda a ser um viajante
imóvel capaz de:
Para viver de
forma ilimitada, convive com seres sobrenaturais, porque somente a imaginação
consegue ultrapassar os horizontes. Foi a boiuna que, ao agitar-se, fez o barco
ruir; o curupira fez o caçador perder-se na mata; a Yara fez afogar-se de
sedução aquele que, aparentemente, não tinha razões para morrer no rio; a
tristeza não veio da alma, mas do canto da acauã. Loureiro et al (SIMÕES, 2000, p.62)
Assim, é nessa
forma de se relacionar com a vida que o cerca, através de um pensamento devaneante, que o caboclo constrói a sua
cultura e reconstrói a natureza pela sua cultura. No entanto, talvez, esse
pensamento, embora válido para o entendimento do sistema literário do
ribeirinho, bem próximo ao sistema
indígena, explicado mais adiante, não sirva para o entendimento de outras
expressões literária da Amazônia porque esteja dentro daquilo que o professor
Gilson Penalva[3]
(2012), em sua tese de doutoramento - no qual desenvolve uma pesquisa sobre a
identidade e o hibridismo cultural na Amazônia brasileira, fazendo um estudo
comparativo da obra de dois escritores amazônicos – rejeita, por considerar uma
forma de essencialismos redutores de
cultura e identidade e propõe-se a “caminhar no sentido de perceber impurezas e
outras deformações que rasuram o modelo epistemológico consensual e
autoritário, que não considera a diferença”. (PENALVA, 2012, p.18). Esse
pensamento de Penalva (2012) está em consonância com o que Homi K. Bhabha
coloca como inovador, crucial e necessário afirmando que:
O que é teoricamente inovador e
politicamente crucial é a necessidade de passar além das narrativas de
subjetividades originárias e iniciais e de focalizar aqueles momentos ou
processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. Esses
“entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de
subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de
identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir
a própria ideia de sociedade. (BHABHA, 2013, p.20).
Entende-se, portanto, que a compreensão da literatura da Amazônia deve
ser feita naquilo que ela tem de diferente, considerando suas diversas formas
de manifestações e que, o trabalho local de cada grupo de pesquisa deve
corroborar para o entendimento amplo da literatura dessa região. Nesse sentido,
é preciso, mais uma vez recorrermos à Ana Pizarro (2012) que também aponta
nessa da busca pelo diferente, uma vez que, para entender as produções
discursivas da Amazônia, ela diferencia seis tipos de discursividades amazônicas atuais, que segundo ela, “desenvolvem
não só diferentes imaginários, diferentes estéticas, mas também emergem
discursos com a voz dos habitantes da região, sem intermediários.” (PIZARRO,
2012, p.10). Assim essa autora descreve as seis formas discursivas: 1) a estética ilustrada[4],
que aparece nas cidades preservando como referenciação fundamental à
floresta, à cultura popular, e à diversidade amazônica, esse tipo de discurso
relaciona-se à poesia em sua expressão ilustrada; 2) os relatos amazônicos que aparecem em forma de romances; 3) discurso de setores
populares com um imaginário
povoado de seres fantásticos ligados à água e à selva; 4) elaboração comunitária deste imaginário, ameaçado pela modernidade;
5) o modo como a população e os
trabalhadores amazônicos se elaboram como sujeitos individuais e coletivos
e, por último, 6) a sobrevivência da
cosmovisão indígenas nas literaturas, que são fundamentalmente orais.
No IX Simpósio Linguagens e Identidades da/na Amazônia Sul-Ocidental[5], realizado entre os dias
09 a 13 de novembro de 2015 pela Universidade Federal do Acre – UFAC, Ana
Pizarro expos que sua compreensão sobre a literatura amazônica compreende a
existência de três sistemas literários que formam três formas de discursos
paralelos com influxos internos entre si. São eles: o sistema popular oral, que está representado por vários gêneros
musicalizados ou não, por exemplo, o desafio da literatura de cordel, ligada
principalmente à cultura nordestina que migrou para a Amazônia em diferentes
momentos da história e traz a figura do panteão popular; o sistema indígena que é complexo por vários motivos, entre eles, a
própria questão das linguagens indígenas que são diferentes entre si; os
gêneros são diferentes dos que aparecem no sistema popular e ilustrado; suas
funções são diferentes, são cantos de trabalhos, cantos rituais, e se trata de
objetos estéticos subjetivos variados, que estão destinados a um público não
ocidental e o sistema ilustrado que é
aquele que aparece impresso, nos livros, na forma escrita e se apropria tanto
do sistema popular quanto do sistema indígena. Para ela, cada um desses sistemas prevê um receptor diferente e também um
suporte distinto que o sustenta, que são o livro, a palavra e a performance e,
também, um emissor distinto: escritor, narrador oral.
Com base nesse entendimento, é possível perceber a existência de pelo
menos três ambientes simbólicos distintos, onde se concentram os estudos das
produções literárias da Amazônia e de sua cultura: a floresta, onde se forma a
cosmovisão indígena; entre o rio e a floresta[6],
espaço de vivência do caboclo[7] e a cidade, com a estética
ilustrada. Pensamos que esse entendimento pode ser ampliado para abranger
outros espaços, outros sujeitos; por isso propomos o acréscimo de um quarto
ambiente para estudos das produções literárias da Amazônia e de sua cultura,
aquele espaço que se forma entre as
rodovias e a floresta. Nesse espaço estariam inclusas as pequenas cidades,
vilas e comunidades de beira de estradas e
rodovias, o campo com os acampamentos de trabalhadores rurais
sem-terra (que podem persistir por
mais de uma década), os latifúndios e os Projetos de Assentamentos – PAs.
Nesses espaços, dos PAs, das pequenas cidades e vilas, convivem sujeitos dos
mais diversos campos de atuação. Nas beiras de estradas e rodovias se encontram
os madeireiros, os prestadores de serviços como: mecânicos, moleiros,
borracheiros, soldadores, vendedores e representantes de supermercados,
autopeças, funcionários públicos entre outros. São sujeitos que em grande parte
migraram de outros estados e aqui construíram suas vidas e formaram famílias.
Esses sujeitos, em muitos casos, não compartilham e até desconhecem todo esse
imaginário simbólico da Amazônia, mas tem seus hábitos, costumes, falares,
crenças, gostos e valores, misturados, entremeados,
uns aos outros e aos dos que aqui já estavam, mesmo não tendo consciência desse
processo. São sujeitos que vivem na fissura, no “entre-lugar”, que não estão
nem lá nem cá, mas lá e aqui ao mesmo tempo, são sujeitos cujas identidades
estão em processo de hibridismo.
Esse fato reforça
o pensamento que estamos buscando fundamentar para o nosso trabalho, que a
Amazônia não se fecha em padrões, ou em essências
e exóticos uma vez que essas
mudanças estruturais acabam por provocar também mudanças culturais e
identitárias. Nesse contexto, a busca de Penalva (PENALVA, 2012) no sentido de
perceber impurezas e outras deformações ganha sentido quando se observa que, longe daquela encantaria do ribeirinho e longe da estética ilustrada dos grandes centros
urbanos, nesse novo espaço construído entre
as rodovias e a floresta, configuram-se outras formas de relações com a
vida.
[1]
Projeto integrado o imaginário nas formas Orais Populares da Amazônia Paraense,
coordenado pela professora Maria do Socorro Simões, da Universidade Federal do
Pará – UFPA.
[2] Et al Simões (2000).
[3] Professor
doutor Gilson Penalva, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará –
Unifesspa, criador e coordenador do Grupo de Pesquisas e Estudos Linguísticos,
Literários e Culturais Pan-amazônicos – GPELLC-PAM.
[4]
Encontramos essa estética ilustrada descrita
por Ana Pizarro (PIZARRO, 2012, p. 171 – 188), segundo ela “a selva é uma
presença pertinaz” nas cidades.
[5]
Assistimos à palestra pelo vídeo postado no endereço
eletrônico https://www.youtube.com/watch?v=c5ZIOp7R6ZU,
em 28/07/2017, às 15 horas.
[6]
Como fala João de Jesus Paes Loreiro et
al (SIMÕES, 2000, p.59-70) na referência que fizemos no tópico anterior.
[7]
Pizarro caracteriza as comunidades caboclas como sendo comunidades múltiplas,
formadas por populações rurais, descendentes de escravos quilombolas e
migrantes de diferentes épocas. (PIZARRO, 2012, p.194).

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