Entre as rodovias e a floresta: um espaço de novas identidades - PARTE 3


(...) um trabalhador, que não teve seu corpo identificado, foi preso pela PM, no dia 6 de agosto de 1987, e, antes de ser assassinado, foi torturado e queimado vivo para que revelasse o nome das lideranças dos posseiros que haviam atacado os pistoleiros da Fazenda Barreiro Preto, do empresário rural Manoel de Sá, no município de Xinguara. São práticas que procuram explicar o poder sobre os corpos, não só dos mortos, mas também dos vivos. Uma ação codificada, violência disciplinar. Exemplos que deveriam ficar profundamente marcados na alma dos homens. Uma pedagogia do terror. Hierarquias que deveriam ser mantidas e pessoas que deveriam obedecer, ser silenciadas, disciplinadas, docilizadas. Uma escrita sobre os corpos com caligrafia sanguenta, letras de traços curvos: avisos de morte. Corpos liquidados, destruídos, mensagens gravadas, corpos-textos aos vivos. As pessoas não só tinham de saber, mas também ver, elas mesmas, com seus próprios olhos. Corpos que se tornaram “textos”: uma violência que apresenta uma visibilidade, mas acompanhada, às vezes, de uma anunciação. Uma violência quase sempre antecedida ou justificada, prévia ou posteriormente, por uma violência simbólica.
(PEREIRA, 2015, p.221-223, grifo nosso)

Caracterizamos os espaços que chamamos de entre as rodovias e a floresta como espaços dinâmicos de formação simbólica multicultural. São locais onde constantemente ocorre a intersecção de culturas e que, porém, ainda são poucos os estudos que se propõem a ouvir as vozes dos sujeitos desses espaços. Partimos da decisão de que é preciso conhecer e reconhecer a literatura que se produz nas beiras das estradas e rodovias como também expressão cultural do homem amazônico, pois se trata de uma poesia que faz refenciação simbólica à luta pela sobrevivência em um espaço amazônico marcado por diversas transformações sociais, culturais e políticas. Mas, afinal que espaço é esse?
O final da década de 1960 foi um período bastante significativo para o surgimento desses novos espaços. Foi nesse período que ocorreram as construções das rodovias que iriam fazer surgir novas identidades culturais e transformar outras já existentes. Foi nesse período que ocorreu a implantação do programa oficial do governo federal para ocupação da Amazônia, com a justificativa de integrar para não entregar ao exterior. Foi o Programa de Integração Nacional - PIN, que num processo de negação do homem amazônico, tratava a Amazônia como terra sem homens. Esse programa contribuiu enormemente para inserir no espaço amazônico migrantes de diversas regiões do país, principalmente do nordeste. Esse processo político ampliou grandemente a diversidade cultural em diversos pontos da Amazônia brasileira, que, justamente por conta dessa diversidade, passa a ser vista como lugar sem identidade, sem cultura.
Com o PIN, houve o início do rompimento de identidades culturais tradicionais em diversos locais amazônicos com aquela cultura mitopoética do caboclo ribeirinho da qual fala Loureiro. O professor Airton Pereira[1] (PEREIRA, 2015) constata que a consolidação da construção das rodovias, estaduais e federais muda a identidade das cidades que deixam de ser cidades ribeirinhas para se tornarem cidades de beira de estradas.  
A imagem abaixo é um registro histórico desse momento.

Fotografia 1 – Abertura da BR-222 (Rodovia Transamazônica)

Fonte: https://www.cartacapital.com.br, pesquisada em 12/07/2017, às 19:28 horas.

Esse fato traz também mudanças na forma de interação do homem com a vida e com a natureza nas cidades que se formaram às margens não mais dos rios, e sim das rodovias.
A professora Bertha Becker fala dessa mudança dizendo que:

O povoamento regional nas últimas três décadas alterou estruturalmente o antigo padrão, secular, fundamentado na circulação fluvial. As rodovias atraíram a população para a terra firme e para novas áreas, abrindo grandes clareiras na floresta, e sob o influxo da nova circulação a Amazônia se urbanizou e se industrializou, embora com sérios problemas sociais e ambientais. (BECKER, 2009, p.73)

Ainda segundo Becker, essa região que propomos aqui chamar de entre as rodovias e a floresta forma “um grande arco de povoamento que acompanha a borda da floresta justamente onde se implantam as estradas”, diz ainda que esse espaço forma um cinturão de 300 a 500 quilômetros de largura, o que corresponde a “500 mil quilômetros quadrados já alterados pelo processo de ocupação.”, (BECKER, 2009, p.75).
Não podemos deixar de perceber o antagonismo desse processo que foi a ocupação do espaço amazônico brasileiro implementado pelo PIN. Pois, se por um lado existe a mazela socioambiental lembrado por Becker - se considerarmos que em torno dos grandes projetos, que trazem enormes impactos ambientais, formam-se os bolsões de misérias - por outro, há o surgimento desse novo espaço que propiciou uma situação de justaposição de culturas e saberes favorecendo o processo de hibridismo culturais e construindo novas identidades.
Nesses locais, forjam-se grandes tensões sociais em torno da disputa por terras, na qual protagonizam outros sujeitos e não mais aqueles agentes identitários de antigamente, da época do caucho e da castanha, conforme descritos por Silva (SILVA, 2006, p.33) como composta por, “na maioria, figuras em movimento, cruzando espaços e lugares, alternando atividades”, ou ainda, “migrantes sazonais” os quais são “castanheiros, caucheiros, barqueiros, tropeiros, comerciantes, garimpeiros e mariscadores”. Nesses novos espaços o protagonismo cabe aos seguintes agentes: trabalhadores rurais; proprietários de terras; agentes sociais como a igreja católica através das pastorais e os STRs; órgãos do estado como o INCRA, a Polícia Militar, Polícia Civil, a Polícia Federal, promotorias e juízes; e os pistoleiros, que, às vezes, é “disfarçado” como segurança da fazenda. É o mundo nem sempre tão poético das pequenas cidades, das vilas e do campo, onde ficam os grandes latifúndios e os PAs com o trabalhador rural, termo esse entendido pelo professor Airton Pereira (PEREIRA, 2015, p.54) como “uma multiplicidade de identidades de trabalhadores ligados ao campo como assalariados, parceiros, arrendatários, pequenos agricultores, pequenos proprietários, posseiros”. Essas são outras identidades que surgem na dinâmica desse espaço entre as rodovias e a floresta. Como lembra Ana Pizarro (2010), a Amazônia está longe de ser uma unidade homogênea como, às vezes, é vista pelo olhar de fora.
No próximo post falaremos sobre a literatura da Amazônia, abordando questões conceituais importantes para a compreensão da cultura e da literatura desse espaço que hora determinamos.

OUTRAS POSTAGENS
A construção discursiva na Amazônia - PARTE 2






[1] Airton dos Santos Pereira é graduado em História (2000) pela Universidade Federal do Pará (UFPA); mestre em Extensão Rural (2004), pela Universidade Federal de Viçosa (UFV); e doutor em História (2013), pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é professor do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade do Estado do Pará (UEPA), campus de Marabá (PA).
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