A construção discursiva na Amazônia - PARTE 2


 
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Feitas então, no post anterior, as definições geográficas, ressaltamos que a descoberta da Amazônia que nos referimos anteriormente deve se dar principalmente em termos culturais, haja vista a diversidade cultural que ela representa. Nesse sentido, Ana Pizarro (PIZARRO, 2012, p.23) fala da Amazônia como “área cultural praticamente desconhecida”. Ainda segundo essa autora, a região amazônica é vista como distante do desenvolvimento, mesmo sendo uma região que primeiro se desenvolveu na América latina em decorrência da exploração da borracha. A despeito disso, ela fala que a Amazônia “é um centro de pesquisa científica e tecnológica de ponta, com relação à diversidade, recursos hídricos, indústria farmacêutica e outros”.  É ainda uma região de fundamental importância para a humanidade, já que é nela que se encontra a maior biodiversidade do planeta com uma fonte inestimável de recursos minerais e energéticos. 
Assim, para entendermos a Amazônia de hoje, é preciso estudar a história da ocupação de seu território e as formações discursivas que aqui vão se processando. Esse estudo não é possível se o dissociarmos da história de colonização do restante do país e da América latina uma vez que, já no século XVI, como mostra a história, a Amazônia despertava a cobiça das potências europeias, obrigando Portugal, que estava sob domínio da Espanha, a organizar expedições para por fim aos pretendentes que invadiam seu território. Foram nesses primeiros contatos que a fauna e flora exuberante dessa região instigaram a fantasia do colonizador. Um fato que contribuiu para essa fantasia consiste em que a cultura ibérica ainda mantinha fortes laços com o imaginário medieval - onde a ideia do oikoumené , do antimundo , das regiões tórridas da terra  e do paraíso terrestre perdido  com a expulsão dos pais primordiais ainda estava presente e povoava o imaginário no mundo luso-hispânico, (GONDIM, 2007).
Toda essa fantasia direcionada antes às índias, durante a Idade Média, voltou-se ao Novo Mundo. É nesse sentido que Neide Gondim (2007) fala em invenção da Amazônia e que essa invenção antecede mesmo a chegada do europeu em terra americana. Por isso, segundo essa autora, a Amazônia fora vista pelo colonizador sob o prisma de uma visão paradisíaca, o próprio Éden, paraíso terrestre perdido de onde o homem fora expulso, conforme relatado no Gênese bíblico. Mas, a Amazônia era também vista pelos que navegaram no imenso rio desconhecido como o lugar das mulheres guerreiras, as amazonas da mitologia grega. Aqui seria possível encontrar o El dourado, a cidade de Manua, lugar onde o oiro florava da terra. Contrária a essa visão mito-edênica, percebia-se também a Amazônia como uma região infernal - pois estava fora do oikoumené. Com essa constatação, então, era natural se imaginar que se tinha aqui, além do terrível e primitivo canibal, possivelmente, a existência de gigantes e criaturas monstruosos escondidos dentro da colossal floresta de rios infestados por piranhas. Gondim (2007) afirma que esse é o olhar de quem observa a Amazônia a partir de sua própria cultura, com um conjunto simbólico já formado. É o olhar do explorador que observa a floresta navegando por seus rios.  É possível relacionarmos esses primeiros contatos do colonizador com a nova terra com aquilo que Tomas Bonnici (BONNICI, 1998, p.12) chama de “transplante” de “uma certa modalidade de civilização europeia”, processo que pode ser entendido como uma imposição cultural da Europa à América. No entanto, nesse “transplante” ocorre um processo criativo de reprodução cultural feita aqui na América, tendo Portugal, Espanha e França como centros de produção simbólicas comuns, os reprodutores de discursos, como foi o caso de Gregório de Matos Guerra, por exemplo, através da leitura de Góngora faz criticas à sociedade baiana de seu tempo, inspirando-se de forma criativa nesses “modelos” de discurso da metrópole como forma de expressão  (PIZARRO, 2012, p.20-22).       
No século XX, Pizarro (2012) destaca a apropriação do fenômeno estético das vanguardas como um momento que representa para a América Latina a busca de sua independência no mundo artístico cultural. E lembra que, ao longo desse século, ocorreu o surgimento de uma concepção mais ampla de cultura, o que possibilitou ver que a “Amazônia não é apenas indígena”, que “os sujeitos sociais são múltiplos e que seu imaginário revela a turbulenta história dessa área”, diz ainda que houve na Amazônia um processo de “miscigenação cultural sem comparação no continente” (PIZARRO, 2012, p.27-29). Essa história cultural da Amazônia mostra que a formação de sua identidade se dá não pelo conflito entre a imagem que o Europeu fez da região e a imagem do autóctone, mas pelo apagamento das vozes e a negação dos sujeitos que aqui viviam. A Amazônia era a “terra sem homens”. E, quando esses homens aqui estavam, vindos aos bocados das diversas regiões do Brasil, principalmente do nordeste, se misturando e lutando pela sobrevivência, a região passa a ser vista como um “lugar sem cultura”, uma “terra de índios” e “cabocos ” preguiçosos.
Essa conceituação de “índio” é um termo genérico também inventado pelo colonizador para nomear uma diversidade de sujeitos. Esse termo que de início fazia uma referência geográfica, usado como adjetivo pátrio, aquele que é natural das índias, com o tempo é também usado como substantivado e ganha outra conotação, construindo arquétipos preconceituosos. O “índio” é um sujeito selvagem, inculto, que se opõe ao europeu civilizado e culto. Já o “caboco” é um infeliz, preguiçoso e seboso pela sua mestiçagem com o índio. É possível entendermos essa total descivilização do índio e do caboclo pelo fetichismo cultural como um “discurso colonial discriminatório e racista” da qual fala Bhabha apud De Souza (DE SOUZA, XXXX, p. 123). Segundo esse autor:

Bhabha aponta a relevância do conceito de fetiche para entender o funcionamento do estereótipo. O estereótipo discriminatório rejeita a diferença do Outro, reduzindo-o a um conjunto limitado de características: “todos os indianos não são confiáveis” ou “todos os árabes são violentos e racionais”. (Ibidem).


O professor Gilson Penalva (PENALVA, 2012, p.43), observa que:

Os elementos “eleitos” como constituidores da identidade cultural amazônica, geralmente são aqueles apontados pelo olhar do colonizador. Observa-se na literatura produzida na e sobre a Amazônia, a exemplo dos relatos de viagens e outros discursos, que este espaço aparece normalmente associado à barbárie e selvageria, muitas vezes adjetivado como não-civilizado.


É dentro desse discurso de fetichismo criador de estereótipos que ouvimos frases do tipo: “Todo paraense é índio” ou “Todo índio é preguiçoso”. Assim, esse estereótipo teria a função não somente de fazer uma simplificação como também de criar uma representação falsa da realidade, negando a alteridade e pressupondo identidades puras que não sejam hibridas.
Essa imagem estereotipada sobre a região amazônica parece impregnada no imaginário brasileiro, pois a impressão que se tem é que a Amazônia é percebida pela restante do Brasil como uma região onde só existe (como se isso não tivesse valor) rio, floresta e índios. Não há como negar - nem queremos, nem pretendemos - que esses elementos existam e que são elementos fortes que enriquecem nossa identidade cultural. O erro está em buscar apenas o “essencialmente exótico” nesses elementos, tentando homogeneizar em “rótulos” preconceituosos a diversidade cultural aqui existente, muito embora, penso, tenhamos que aceitar também o exotismo como parte da Amazônia.
Até que ponto esses estereótipos culturais “contaminam” a imagem da literatura que se faz na/da Amazônia? Qual é o espaço dessa literatura no contexto da contemporaneidade nacional?  Abordamos essas questões partindo do pensamento de que a Amazônia é uma região cuja identidade se verifica na diferença, no “entremeio”, no “entre-lugar” (SANTIAGO, 2004), ou seja, nem lá nem aqui; mas lá e aqui ao mesmo tempo.

No próximo post falaremos sobre a literatura da Amazônia.

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